*
mais ninguém percebia,
apenas eu.
*
calada,
com o olhar distante
pensava na vida, provavelmente.
*
seu aspecto era debilitado,
cabelo desarranjado,
preso por um pedaço de tecido cinza escuro.
vestia de uma forma desagradável,
uma camisola azul claro suja,
uma saia pelo joelho como lhe ensinaram,
meias grossas numa tarde de verão
metidas numa chinela aberta.
*
Percebia-se que pelo seu jeito calado,
não era mulher de grandes amigos,
apenas se sentia bem com quem lhe parecia.
sem um discurso coerente e perceptível,
dificil manter uma conversa,
mas que pobre mulher,
que pobre mulher é esta.
*
ela levantou-se.
quanto mais gestos fazia
mais conseguia eu ver.
via que sofria por um irmão sem educação.
havia sido abusada várias vezes sem perceber.
o seu olhar transbordava lágrimas secas,
vivia por viver.
*
nunca havia tido um homem na sua vida,
a não ser o seu irmão.
sem pais que a ajudassem,
sem ninguém que tomasse conta dela,
caminhava todos os dias pelo mesmo caminho,
o caminho de terra para a sua casa velha.
*
pensei por instantes
que para ela não teria havido sol,
que a vida não teria sido justa
mas ela continuava com aquele ar,
serena.
*
acho que o que mais me incomodava
não foi aquilo que vi,
não tanto por ninguém perceber,
mas mais o seu olhar sereno,
conformada com o que a vida lhe reservou.
*
no entanto, todos os dias
seguia pelo mesmo caminho,
sentava-se na mesma mesa,
sem perceber que lhe chamava,
pobre mulher.
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Parabéns!!!
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