ao sol

levanto-me e espreito pela janela.
a manhã parece-me um pouco atrevida.
o sol toca cada silêncio da rua,
preenchendo cada espaço de calor
como  se preparasse o dia para cada um.
*
os pássaros chilreiam à medida que ela avança,
como se agradecessem por um dia tão maravilhoso.
pulam de folha em folha
à procura do seu lugar.
decido ser como aqueles pequenos pássaros,
aproveitar cada silêncio daquela manhã,
apenas interrompido por aquele chilrear relaxante.
sento-me naquele muro,
aquele muro da minha casa
que a divide daquele monte.
com as costas voltadas,
o sol abraça-me com um único gesto,
e sinto-me acolhido.
se calhar nunca me havia sentido tão acolhido,
por aquele abraço tão distante.
deixei-me estar no meu muro.
o sol cada vez me abraçava mais
e eu ia agradecendo,
não tinha como pagar por isso.
sentado naquele muro
conseguia compreender duas histórias,
de um lado um conjunto de afectos incompreendidos e forçados,
por outro uma generosidade imensa da natureza,
então por momentos
quis pertencer àquele ciclo,
juntar-me como se fosse um só,
passar para o outro lado do muro.
deixei cair o pé.
hesitei,
tentei perceber se era mesmo aquilo que ansiava,
era magnífico pensar como um só,
acordar aquecido pelo sol,
embalado pelos pássaros.
mas não queria ser um só.
queria ser eu,
queria ser egoísta, altruísta, invejoso e até mesmo generoso.
percebi que queria errar,
que queria sentir tudo que do outro lado do muro parecia esquecido.
levantei o pé
e nunca mais agradeci ao sol.

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