hoje saí de casa
com uma leve ideia
respirando cada passo
vendo que a vida é uma constante alteração
*
sorria, falava, comentava
eram os gestos traduzidos pelo inconsciente
era como se fosse impossível resistir
cada sorriso que me ofereciam
eu sorria
cada palavra que me dirigiam
eu respondia
era como se naquele instante toda a gente me conhecesse
*
só que não era tão simples assim
apercebi-me que depois de cada sorriso
depois de cada conversa
a minha vida não mudava e desiludia-me.
*
não conseguia perceber porque depois de cada sorriso,
depois de cada conversa,
a vida podia ser tão diferente.
*
questionei-me.
*
então percebi que aqueles sorrisos,
aquelas palavras não eram verdadeiras,
tudo não passava de um conjunto de socialidades e formalismos .
*
cinismo? pensei eu.
não, eram apenas gestos inatos,
tão inatos quanto os meus.
era como se as pessoas se sentissem obrigadas a sorrir por me terem visto ou até falado.
*
comecei a não sorrir.
*
percebi que afinal tinha razão,
nada daquilo era verdadeiro.
eu não sorria, não recebia sorrisos.
eu não falava, não me trocavam palavras.
aquele conjunto de formalismos fora desenraízado e extinto,
e num instante,
passei de rico a pobre pecador.
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