és tu

quando a vida se esconde
procura-a
ela não anda longe
anda sempre bem perto
se não a encontras
não é porque esteja bem escondida
é mais porque não a queres encontrar

*

não receies
do teu passado
do teu presente
do teu futuro

*

porque se tu não és tu
quem hás-de ser então
esquece o que os outros dizem
sorri
fala
liberta-te

*

nada melhor do que pensar
recordar
e ser um pássaro silvestre

*

[a vida é uma liberdade]

pobre mulher

na mesa habitual vi a pobre mulher,
o seu rosto demonstrava perfeitamente todas as amarguras,
era como se ao olhá-la lhe visse a vida.
*
mais ninguém percebia,
apenas eu.
calada,
com o olhar distante
pensava na vida, provavelmente.
seu aspecto era debilitado,
cabelo desarranjado,
preso por um pedaço de tecido cinza escuro.
vestia de uma forma desagradável,
uma camisola azul claro suja,
uma saia pelo joelho como lhe ensinaram,
meias grossas numa tarde de verão
metidas numa chinela aberta.
Percebia-se que pelo seu jeito calado,
não era mulher de grandes amigos,
apenas se sentia bem com quem lhe parecia.
sem um discurso coerente e perceptível,
dificil manter uma conversa,
mas que pobre mulher,
que pobre mulher é esta.
ela levantou-se.
quanto mais gestos fazia
mais conseguia eu ver.
via que sofria por um irmão sem educação.
havia sido abusada várias vezes sem perceber.
o seu olhar transbordava lágrimas secas,
vivia por viver.
nunca havia tido um homem na sua vida,
a não ser o seu irmão.
sem pais que a ajudassem,
sem ninguém que tomasse conta dela,
caminhava todos os dias pelo mesmo caminho,
o caminho de terra para a sua casa velha.
pensei por instantes
que para ela não teria havido sol,
que a vida não teria sido justa
mas ela continuava com aquele ar,
serena.
acho que o que mais me incomodava
não foi aquilo que vi,
não tanto por ninguém perceber,
mas mais o seu olhar sereno,
conformada com o que a vida lhe reservou.
no entanto, todos os dias
seguia pelo mesmo caminho,
sentava-se na mesma mesa,
sem perceber que lhe chamava,
pobre mulher. 

ao sol

levanto-me e espreito pela janela.
a manhã parece-me um pouco atrevida.
o sol toca cada silêncio da rua,
preenchendo cada espaço de calor
como  se preparasse o dia para cada um.
*
os pássaros chilreiam à medida que ela avança,
como se agradecessem por um dia tão maravilhoso.
pulam de folha em folha
à procura do seu lugar.
decido ser como aqueles pequenos pássaros,
aproveitar cada silêncio daquela manhã,
apenas interrompido por aquele chilrear relaxante.
sento-me naquele muro,
aquele muro da minha casa
que a divide daquele monte.
com as costas voltadas,
o sol abraça-me com um único gesto,
e sinto-me acolhido.
se calhar nunca me havia sentido tão acolhido,
por aquele abraço tão distante.
deixei-me estar no meu muro.
o sol cada vez me abraçava mais
e eu ia agradecendo,
não tinha como pagar por isso.
sentado naquele muro
conseguia compreender duas histórias,
de um lado um conjunto de afectos incompreendidos e forçados,
por outro uma generosidade imensa da natureza,
então por momentos
quis pertencer àquele ciclo,
juntar-me como se fosse um só,
passar para o outro lado do muro.
deixei cair o pé.
hesitei,
tentei perceber se era mesmo aquilo que ansiava,
era magnífico pensar como um só,
acordar aquecido pelo sol,
embalado pelos pássaros.
mas não queria ser um só.
queria ser eu,
queria ser egoísta, altruísta, invejoso e até mesmo generoso.
percebi que queria errar,
que queria sentir tudo que do outro lado do muro parecia esquecido.
levantei o pé
e nunca mais agradeci ao sol.

junto ao mar

sento-me no banco de pedra
aquele que fica virado para o mar
que me acompanha quando estou sozinho
que me obriga a olhar.

vejo simplesmente as ondas que desenrolam
a areia que é levada
numa renovação constante
a lembrar a vida que passa
porque a nossa vida é assim mesmo
uma folha caída
uma nova que nasce.
 
deixei-me levar por momentos
por este poço que é o mar
por um azul ilusão
por este espelho real.
 
o meu banco aconselha-me
fecho os olhos por instantes
ouço apenas o grito da água
aquele bater e misturar na areia.

abro de novo o olhar
e tudo parece diferente
o mar transformou-se em nada
porque a minha imaginação desvaneceu-se
lembrando que o que me prendia
não era o mar
mas aquela pedra que nos faz sentar, imaginar, lembrar e a olhar. 

metamorfose

hoje saí de casa
com uma leve ideia
respirando cada passo
vendo que a vida é uma constante alteração
 *
sorria, falava, comentava
eram os gestos traduzidos pelo inconsciente
era como se fosse impossível resistir
cada sorriso que me ofereciam
eu sorria
cada palavra que me dirigiam
eu respondia
era como se naquele instante toda a gente me conhecesse
só que não era tão simples assim
apercebi-me que depois de cada sorriso
depois de cada conversa
a minha vida não mudava e desiludia-me.
não conseguia perceber porque depois de cada sorriso,
depois de cada conversa,
a vida podia ser tão diferente.
questionei-me.
então percebi que aqueles sorrisos,
aquelas palavras não eram verdadeiras,
tudo não passava de um conjunto de socialidades e formalismos .
cinismo? pensei eu.
não, eram apenas gestos inatos,
tão inatos quanto os meus.
era como se as pessoas se sentissem obrigadas a sorrir por me terem visto ou até falado.
comecei a não sorrir.
percebi que afinal tinha razão,
nada daquilo era verdadeiro.
eu não sorria, não recebia sorrisos.
eu não falava, não me trocavam palavras.
aquele conjunto de formalismos fora desenraízado e extinto,
e num instante,
passei de rico a pobre pecador.
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